Por Luis Nassif, no Jornal GGN:
Vamos a uma pequena crônica da política, vista de São Paulo.
O
escândalo da merenda escolar foi um ponto fora da curva do PSDB de São
Paulo. Por tal, não se entenda o esquema em si, mas o esquema escapando
do controle das autoridades do Estado. Por aqui há uma aliança férrea
entre governo do Estado, Ministério Público Estadual e jornais.
A
cooperativa de Bebedouro era um propinoduto que alimentava algumas
lideranças tucanas, como os deputados Fernando Capez, presidente da
Assembléia Legislativa, Duarte Nogueira, Baleia Rossi e o Secretário da
Casa Civil Edson Aparecido – um personagem com participação em muitos
projetos.
Envolve altos operadores tucanos, como Luiz Roberto
dos Santos, o Moita, tão eficiente que havia sido promovido da
Secretaria dos Transportes para a Casa Civil. E Fernando Padula, quadro
histórico, há oito anos na chefia de gabinete da Secretaria da Educação.
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Capez
montou sua campanha sem dispor de uma base de eleitores, regional ou
setorial. Valeu-se da imagem de procurador público contra a corrupção
para conquistar votos horizontais. Fez uma campanha cara, provavelmente a
mais cara do Estado, a julgar pela quantidade de autuações no Tribunal
Regional Eleitoral.
Durante a campanha, provavelmente enfrentou
problemas de financiamento e seus assessores foram pressionar a COAF
(Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar), a fonte da corrupção. Havia
uma disputa interna, não percebida, as conversas foram gravadas,
chegaram até o promotor local que fez a denúncia.
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Aí
entram os jogos de intriga. Capez tinha ambições maiores. Anunciou que
participaria das prévias do partido para as eleições municipais.
Mandaram não colocar. Decidiu dar apoio a João Dória Júnior.
Quando
explodiu o escândalo, alguns viram a mão do senador José Serra. O
próprio Capez atribuiu o escândalo ao Secretário de Segurança Alexandre
Moraes, um ex-jurista que assimilou tanto a aridez o cargo que passou a
extravasar arrogância em todas as audiências na ALESP.
Não fazia sentido. Afinal, pelo tema, o desgaste do governo Alckmin é maior do que no episódio do cartel de trens.
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A
ideia do fogo amigo perdeu força e ganhou corpo a versão da perda de
controle mesmo. Tanto que o Ministério Público Estadual (MPE), do qual
Capez é integrante, agiu rapidamente.
O Procurador Geral do
Estado, Márcio Rosa Elias, tratou de montar uma comissão de investigação
e conseguiu tirar do inquérito o promotor natural.
A comissão é
composta por dois promotores de Bebedouro e dois procuradores de justiça
de São Paulo. Os dois procuradores são o próprio Márcio Elias Rosa e
Nilo Spínola de Salgado Filho. Na gestão anterior, o PGE anterior,
Antônio Araldo Dal Pozzo, criou promotorias especializadas. Uma delas
era a de Assuntos Públicos era integrada por Márcio Elias, Nilo Spínola e
o próprio Capez.
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Os dois companheiros irão julgar o
terceiro. Segundo parlamentares oposicionistas, Márcio Elias ordenou a
quebra do sigilo bancário e fiscal de Capez, sabendo que não tem nada. O
problema nas investigações é se bater em 18 empresas em nome de um
cunhado, que têm vários problemas de registro na Junta Comercial.
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No meio do tiroteio, o ex-chefe da Casa Civil de Geraldo Alckmin, Arnaldo Madeira, saiu da toca para atirar no esquema Alckmin.
Madeira
caiu em desgraça no segundo governo Alckmin, quando articulou a eleição
do presidente da ALESP. Sua chapa foi derrotada com humilhação. Em
seguida, o presidente eleito da ALESP, Rodrigo Garcia, procurou Alckmin e
ofereceu-lhe a vitória. Madeira caiu em desgraça.
Na campanha
para deputado, Madeira se valia de seu cargo para despejar verbas
estaduais para projetos mal explicados tocados por sua esposa na
Fundação Seade. Não foi reeleito. Hoje, o espaço político de que dispõe é
prestar serviços à adversários de Alckmin.
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Narro
essa crônica paulistana apenas por mostrar o que é o modelo político
brasileiro. É o mesmo que o PT, o PPS, o DEM, e outros partidos
virtuosos fazem nos espaços que governam.
Por ter saído do
controle, acabou com a carreira promissora de Capez. Provavelmente, no
plano penal vitimará apenas bagrinhos. Com todas essas vulnerabilidades,
permite toda sorte de manobras políticas.
Por isso, quando se
ouve o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso bradando pela moralidade,
Alckmin deblaterando sobre sítios e pedalinhos, e os procuradores da
Lava Jato anunciando a ressurreição geral da virtude, só resta uma
reação: decidamente, é o país da hipocrisia.
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